Dr. Quintino


Nasceu na pequena vila alentejana de Nisa, encostada ao Tejo e à fronteira com Espanha. Em 1971, os pais procuravam melhores condições de vida, mas perante uma proposta de trabalho para ir para a Suécia, o pai rejeitou-a porque não quis separar-se da mulher dos filhos. Quis a sorte que surgisse outra oportunidade oferecida por duas mulheres da terra, a D. Eugénia e a D. Elvira. O pai aceitou-a e a família instalou-se então em Alcoitão, uma pequena povoação no concelho de Cascais.

Durante a semana, terminadas as aulas, juntamente com as irmãs e outras crianças brincava no pátio da escola, enquanto o avô arranjava o jardim da escola e a avó fazia renda de bilros ou meias com cinco agulhas no mesmo lugar. A casa era pequena e não dava para correr e brincar; mas ali não faltava espaço e a presença dos avós trazia o afeto que até hoje sente em relação a qualquer escola. Aos domingos à tarde havia mais brincadeira; mas com os pais e nos jardins de Cascais, sempre seguido de um passeio pelo Guincho, durante qual a mãe sempre lembrava quão bonita era a região onde viviam.

Às escondidas dos pais, começou a trabalhar aos 13 anos, mentindo também ao patrão acerca da sua verdadeira idade. (Os pais só souberam mais tarde, porque o pai estava hospitalizado devido a um acidente de trabalho e a mãe visitava-o durante todo o dia). Admirou profundamente a personalidade daquele patrão, o Sr. Vilanova, extremamente trabalhador. E, como por vezes se sentia cansado, achou que era preguiçoso, ideia que se transformou na sua maior angústia – nunca seria tão trabalhador como o Sr. Vilanova! Já adulto, quando a família e os amigos começaram a dizer-lhe que trabalhava muito, percebeu que por vezes sentir cansaço é normal, mesmo para quem gosta de trabalhar, e perdeu esse medo.

Os exercícios de matemáticas eram o seu passatempo preferido nas férias de verão, que muitas vezes eram passadas com os avós, no Alentejo. E por isso pensou ser professor de Matemática. Mas depois achou que passados uns anos seria uma atividade muito rotineira e desinteressou-se. Pensou na Medicina, mas a nota de entrada era ridiculamente elevada. A Psicologia veio por uma série de acasos … ou talvez não. Mas no segundo ano apaixonou-se por esta ciência. As aulas na Universidade de Lisboa deixavam bastante tempo para dar muitas explicações de matemática e também para descobrir a noite daquela cidade maravilhosa que lhe mostrou o que nem imaginava.

O primeiro emprego como psicólogo foi no serviço de Neurocirurgia do Hospital Militar Principal. Surge também a oportunidade de fazer consultório privado e de dar aulas na Universidade Lusófona. Tudo o que qualquer um queria. Pela primeira vez, sente a brutalidade da inveja humana e ganha sentido a frase tantas vezes escutada à avó materna: “Quem é o teu pior inimigo? O que tem a tua arte!” Desilude-se com a pouca resposta concreta que a psicologia oferecia a casos de pessoas reais e pensa em fazer outro curso. Mas a descoberta da Neuropsicologia russa no curso e estágio em Barcelona, Espanha, com o Professor Jordi Peña Casanova e a formação em Psicoterapia em, Lisboa, com a Professora Rita Mendes Leal, trazem de novo a paixão e um profundo desejo de trabalhar mais e cada vez melhor. Cria o primeiro laboratório de Neuropsicologia num departamento de Psicologia numa universidade portuguesa. A pedido de muitos antigos alunos e em colaboração com Filomena Almeida, organiza o primeiro instituto português vocacionado para a profissionalização de psicólogos. Faz mestrado em Psicologia, também na Universidade de Lisboa, e doutoramento em Psicolinguística na Universidade Nova de Lisboa.

Em 1997, surge a possibilidade da televisão, depois a rádio e a impressa escrita. Mas também a primeira visita à Universidade de Moscovo. As paixões pelo estudo e pelo trabalho fazem-se ainda mais fortes. A par de uma intensa atividade profissional clínica, deu cursos, realizou conferências e seminários em mais de 50 países, com destaque para o Irão, China e Indonésia, pelo significado histórico político, e para a Finlândia, pelo significado emocional, já que se tratou de uma cooperação com a Rússia. Tudo isto estimulou o estudo do alemão, espanhol, russo, catalão e árabe (estes dois apenas como curiosidade linguística), para além do inglês e do francês. Escreveu muitos artigos e capítulos em livros científicos, sete livros dedicados ao público geral, com traduções para espanhol e russo, e cinco prémios e distinções internacionais.

Passados assim estes 50 anos de vida, diz de si: “A vida deu-me tudo, muito mais do que eu poderia imaginar e pedir. Bem, quase tudo: falta ainda ir para além das paixões, que têm sido intensas, e viver um amor continuado como souberam construir os meus pais e os meus avós maternos. Talvez agora, nesta segunda metade de século”.

Texto publicado na revista Cristina.