“Se o arrependimento matasse…”

Escrito em em Junho 12, 2019

Se o arrependimento matasse, não teríamos oportunidade para reformular, e melhorar, as nossas atitudes e comportamentos

Se o arrependimento matasse, não teríamos oportunidade para reformular, e melhorar, as nossas atitudes e comportamentos. Viver é permanentemente ultrapassar o mundo. Hoje sabemos, graças aos biólogos, que não chega adaptarmo-nos ao ambiente; o verdadeiro sentido da vida é ir sempre mais longe do que o próprio desafio. O que exige muitas aprendizagens e mesmo um permanente reequipamento e reformulação da forma como nos vemos a nós mesmos e agimos no mundo.

Estas aprendizagens e transformações não acontecem pela simples constatação de que fizemos alguma coisa mal e que no futuro queremos fazer diferente e melhor. É verdade que muitas vezes até chegamos a pensar que na próxima será diferente, que não está bem a forma como agimos e vamos mudar. Apenas palavras! Para que se verifique uma verdadeira mudança, aquela mudança interna que provoca mais um passo na evolução pessoal, naquela caminhada de sempre ir mais à frente e sempre superar melhor a cada vez, é preciso mais.

As neurociências explicam que essa mudança é possível mas exige passar por algum sofrimento. As áreas cerebrais da aprendizagem estão suficientemente próximas e têm muitas conexões neuronais com as áreas do medo, da angústia e do arrependimento. E quase não se cruzam com as áreas cerebrais do prazer e do conforto.

Mudar, evoluir, fazer diferente, só acontece depois de algum, por vezes muito, desconforto. Não quero com isto dizer que devemos procurar o sofrimento para evoluirmos. Também não funciona desse modo. Mas se fizermos alguma coisa que agora traz arrependimento, é exatamente esse arrependimento que pode contribuir para a nossa mudança real. Por isso digo que ainda bem que não mata; se ele matasse, claro está, não teríamos depois a possibilidade de aproveitar o ganho da mudança e nem a possibilidade de saborear a beleza que é a vida.

(publicado originalmente na revista Cristina, em setembro de 2016)


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