É mais difícil deixar… ou ser deixado?

Escrito em em Junho 9, 2019

Cortar uma relação amorosa – deixar ou ser deixado – é algo que não faz parte das nossas representações mentais

Duas pessoas namoram ou casam para ficarem juntas até que a morte as separe. Interromper, terminar, cortar uma relação amorosa não faz parte das nossas representações mentais. Se nos deixa, é porque alguém o levou ou porque falhámos na capacidade de o fazer sentir-se realizado. Inicia-se uma batalha contra a falta de lógica em toda a história. Uma batalha para que o nosso amor compreenda que ele é o nosso amor, e por isso não pode afastar-se. Simplesmente porque não faz sentido. E é preciso que ele compreenda esta verdade ainda antes que o retorno à normalidade se torne muito difícil ou até impossível. O dia a dia fica animado pela ansiedade, que não é mais do que ter um problema para resolver. E alguma raiva, especialmente dirigida à terceira pessoa que se meteu no caminho da nossa felicidade.

Deixar… é outro processo. Estamos animados com a alegria da nova descoberta, descoberta de alguém que descobrimos e que não queremos perder. Voltámos a sonhar com a alegria suprema, que só um amor daqueles que duram até que a morte nos separe poderá oferecer. Também neste caso a ansiedade é o sentimento que anima os dias. Resolver o problema da conquista do novo amor, que está sempre carregado com a dúvida sobre o sucesso.

Ao contrário destas duas versões, ambas acaloradas, seja por haver sido deixado ou por haver deixado, existe também a possibilidade de uma profunda invasão de culpa e de tristeza, geradoras de uma pesadíssima apatia. Uma tristeza com culpa por não ter conseguido agradar a quem tanto queríamos, que por essa nossa falta nos deixou; uma culpa com tristeza por não termos conseguido amar quem tão bem nos quis, o que agora nos obriga a deixar.

Nos primeiros casos, ser deixado e deixar são ansiedade. Nos segundos, ser deixado e deixar são tristeza e culpa. Portanto a dificuldade resulta da forma como interpretamos o fim desse amor eterno. Quase nada tem a ver com o papel que assumimos, ser deixado ou deixar, na realidade vivida paralela a toda essa ilusão de que o amor sempre é eterno.

(publicado originalmente na revista Cristina, em agosto de 2016)


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