“Se soubesse o que sei hoje…”

Escrito em em Maio 29, 2019

Em relação ao casamento, muita gente repete o tão famoso “se soubesse o que sei hoje…”

O casamento é uma carta fechada. Diz o povo, que é sábio. E a ciência das relações amorosas diz que não é possível saber antecipadamente como se comportará no dia-a-dia, vivendo na mesma casa e com um compromisso, uma pessoa com quem se namorou, mesmo que por muito tempo.

A personalidade humana é dinâmica e muito dependente das circunstâncias. Já em criança os comportamentos na escola e em casa podem ser muito diferentes. E quando adultos, de férias fora do país, fazemos coisas que não se podem contar quando voltamos à terrinha. Qualquer mudança nas circunstâncias pode alterar a forma como percebemos e agimos no dia-a-dia. E por maioria de razão deitar-se e acordar todos os dias com a mesma pessoa, gerir dinheiros e tempos livres, e partilhar as preocupações sobre o futuro, pode tornar-se tão enervante que parece que nem reconhecemos a pessoa com quem namorámos no passado e escolhemos para casar. E muitas vezes nem nos reconhecemos nas nossas próprias reações.

O casamento é a mais bela e importante invenção na história da Humanidade. Mas exige uma preparação para lidar com o inesperado e surpreendente. Quando aceitamos casar apenas conhecemos e elegemos aquele outro ser humano pela forma como ele ou ela é no namoro. Não no casamento. Nesse contexto ainda não o conhecemos. Simplesmente porque nunca estivemos casados com ele ou com ela. E o mesmo se pode dizer da vida de casados propriamente dita. O que antes era resolvido numa cabeça agora é negociado por duas. E, se por cansaço, desistirmos de afirmar e defender a nossa intenção, acordamos uma manhã e descobrimos que estamos completamente dominados e sufocados.

Por alguma razão muita gente repete o tão famoso “se soubesse o que sei hoje…”. Mas não é motivo para tanto. Acredito que quem está no casamento ciente dos desafios consegue passar cada etapa sem grandes amarguras, nem desesperos. O que realmente faz algumas pessoas odiarem o casamento é imaginarem ser suficiente dizer sim e colocar uma aliança no dedo, e pensarem que depois tudo fluirá naturalmente, sem trabalho emocional nem mudanças e adaptações.

(publicado originalmente na revista Cristina, em abril de 2016)


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