A melhor mãe é a que se vai tornando desnecessária com o passar dos anos?

Escrito em em Maio 19, 2019

No passado a mulher mãe tinha como grande função alimentar a cria e garantir a sua sobrevivência. Hoje a sua função é ainda maior… Mas será que é sempre necessária?

O mistério da maternidade tem múltiplas leituras. O estímulo do espermatozoide de um homem desencadeia um processo inimaginavelmente belo e complexo que permite que a informação presente em apenas duas pequenas células sirva de forma a um novo humano. Mas esta é apenas uma história. A outra, que acontece logo de seguida com o nascimento, centra-se no vínculo gerado entre mãe e filho e que permite àquele bebé sair da condição de animal humano e tornar-se pessoa.

No passado a mulher mãe tinha como grande função alimentar a cria e garantir a sua sobrevivência. Hoje a sua função é ainda maior e inclui ajudá-lo a descobrir quem é, do que gosta, como se realiza, num movimento que inclui também o descobrir o mundo e tornar-se independente. Um primeiro período de nove meses dentro do útero materno para formar o corpo, seguido de um segundo período de dezanove anos no vínculo materno para formar a personalidade. O útero serviu ao embrião e ao feto apenas até este se tornar bebé e poder nascer; o vínculo serve à criança e ao adolescente apenas para se tornar Pessoa com a sua personalidade única.

Infelizmente este conto tão bonito nem sempre é assim. Nem sempre a mãe organiza a sua vida emocional e afetiva no meio de outros adultos. Perspicaz, mesmo que não consciente, nestes casos não autonomiza o filho e não o deixa crescer e tornar-se independente. Acredita que ele poderá ser para sempre o seu amigo. Dá-lhe tudo se necessário for, menos o “Não” que o faria crescer. Também ele nunca lhe dirá “Não”, fazendo-a sentir-se útil e única na sua vida. Para mal dos dois. Para o filho, porque nunca será autónomo e não poderá experimentar a felicidade de agir; para a mãe porque sofre a frustração de nunca ver a obra acabada. Por isso dizemos que a melhor mãe é a que se vai tornando desnecessária com o passar dos anos.

(publicado originalmente na revista Cristina, em janeiro de 2016)


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