Consultório: “Os presentes de Natal que dou a um filho devem ser do mesmo tamanho dos que dou a outro?”

Escrito em em Dezembro 23, 2018

Eis uma dúvida sobre presentes de Natal que deixa muitos pais a pensar…

“Em primeiro lugar quero dizer-lhe que o admiro muito e é sempre com muito gosto que o escuto e que o leio. Preciso colocar-lhe duas questões relativamente aos meus filhos e aos presentes de natal. Primeiro gostava de saber se o que dou a um deve ser obrigatoriamente do mesmo tamanho e valor em dinheiro do que o que dou ao outro. Se fizer alguma diferença poderá parecer que gosto mais de um do que do outro? E também gostaria de lhe perguntar se devo guardar alguns dos presentes /brinquedos e dar-lhos mais tarde. É que todos os anos me irrito com a confusão que eles fazem, mexendo em tudo e não brincando com nada. Muito, muito obrigado: As suas palavras são sempre muito orientadoras para a minha forma de os educar. Rosa Maria”

Minha querida Rosa Maria. Muito pertinentes as suas questões. Quase sempre o que vejo os pais fazerem em relação a estes dois assuntos é bem diferente daquilo que eu penso ser a pedagogia mais útil para o desenvolvimento das nossas crianças. Em relação ao tipo de presente a dar a cada um, gostaria de lhe dizer duas coisas. O que se oferece a cada pessoa é para aquela pessoa. E como as personalidades são sempre diferentes mesmo que muito parecidas, se escutarmos e observarmos com atenção os nossos filhos, com relativa facilidade percebemos que os seus interesses são diferentes.

Por isso mesmo, o que lhes oferecemos deve ser também diferente. Mesmo que quando ainda pequenitos eventualmente manifestem alguma inveja, como faz parte nestas faixas etárias, a nossa forma de lidarmos com cada um deles não deve ficar condicionada. Podemos aproveitar para lhes dizer que não entendemos o que estão a dizer, pois se o que queriam era aquilo que lhe demos, mesmo sendo mais pequeno ou mais barato é uma palermice agora estarem a olhar para o que o irmão recebeu. E penso que esta é uma excelente forma de os educar no sentido de se perceberem como pessoas únicas, diferentes de todas as outras, com os seus próprios gostos e interesses. Uma forma de aprenderem também a lidar com os muitos momentos ao longo da vida em que o que o irmão tem ou consegue não é exatamente igual ao que ele tem ou consegue, mas não faz mal nenhum, e assim de diminuírem a rivalidade fraterna.

Sobre a gestão dos muitos presentes e brinquedos, o melhor é pensarmos que eles são crianças e têm a nossa orientação, porque ainda não estão preparados para serem eles mesmos a gerirem as suas coisas.

A única estratégia que me parece correta é, e depois de os deixar ver tudo o que receberam durante um pequeno tempo, ser o adulto a promover e orientar a seleção de dois ou três brinquedos (no máximo!) e a guardar todos os outros.

O grande mestre da psicologia e da pedagogia Liev Vegotsky escreveu e dizem que repetiu muitas vezes que o que em adultos conseguimos fazer sozinhos em crianças fizemos orientados por um adulto. Então esta gestão de guardar grande parte dos novos brinquedos, deixando apenas acessíveis dois ou no máximo três, é uma forma de os desenvolvermos no sentido de em adultos serem capazes de gerirem o que tiverem. De tudo o que sei, acho que é a forma mais correta de os prepararmos para a vida futura.

Felicidades para toda a sua família, e muito obrigado pelo seu email, pois tenho a certeza de que também este é um assunto que deixa muitos pais a pensar.

(publicado originalmente na revista Cristina, em dezembro de 2017)


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