Alguns mal-entendidos na relação entre pais e filhos

Escrito em em Dezembro 9, 2018

Lembro-me agora de uma das vezes em que trabalhei uma relação distante entre pai e filho, há muitos anos, em consultório e que deu lugar a alguns mal-entendidos

Lembro-me agora de uma das vezes em que trabalhei uma relação distante entre pai e filho, há muitos anos, em consultório. Na semana seguinte perguntei-lhe como tinha corrido uma tentativa de aproximação, ao que ele respondeu que muito bem. Perguntei-lhe como brincaram e ele respondeu que tinham usado um jogo de computador de que o filho gosta muito. Fiquei assustado, mas dei alguma margem para a dúvida, pois a esperança é a última a morrer e eu sou um optimista.

Mas rapidamente percebi que eu não tinha explicado bem o meu pedido de aproximação. Aproveitaram um dia em que a mãe chegaria mais tarde a casa e seria o pai a preparar o jantar. O pai ligou o computador, e enquanto avançava na preparação do comer, o filho jogava. Quando este terminava a parte dele chamava o pai, o filho ia para o quarto e o pai jogava a parte dele. ERRADO! Não era nada disto que eu pretendia. O truque é a interacção entre os dois, e não a interacção de cada um com o computador ou com o jogo. E como resolviam a questão dos cinco a nove minutos de tempo máximo entre a iniciativa do filho e a contingência do pai? Não resolviam. O que eles fizeram não era dialógico, e nem sequer relação.

Numa outra situação, com uma mãe, esta começou por dizer que a brincadeira tinha sido um pouco tonta, que não sabia se estava bem. Perguntei-lhe como fizeram. E ela explicou que no domingo, depois do almoço, simplesmente se deitaram em cima da cama. Como o filho lhe bateu ligeiramente com o pé, e lhe pareceu que não tinha sido por acaso, ela fez o mesmo, com cuidado para não o magoar, e sorriu para ele. Primeiro ele olhou e depois repetiram, e com esta brincadeira riram à gargalhada durante quase um quarto de hora.

Muito bem. Simples, sem grandes equipamentos e muita emoção. O filho teve uma iniciativa, a mãe foi contingente a essa iniciativa, e desta forma tão simples inventaram uma brincadeira com todos os aspectos de uma relação dialógica. Claro que as batidas a cada um eram ligeiras, não magoavam e até terminaram com um abraço de alegria. E era tudo o que se pretendia. Que se relacionassem.


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