A natureza das crianças

Escrito em em Novembro 21, 2018

Muitas vezes ouvimos que as crianças hoje são muito diferentes. Esta ideia corresponde apenas a uma ilusão.

Muitas vezes ouvimos que as crianças hoje são muito diferentes. Esta ideia corresponde apenas a uma ilusão. As crianças de hoje têm a mesma natureza das crianças dos tempos passados. Ao longo de todos estes anos, não ocorreu nenhuma alteração genética significativa, e por isso a biologia não se alterou. Os programas biológicos de comportamento que cada criança tem à nascença são exactamente os mesmos que os de qualquer outra criança nascida há 400.000 anos, altura em que se estima ter surgido a nossa espécie. E ao contrário do que o pedagogo suíço do século XVIII afirmou, as crianças não nascem belas e puras, sendo só mais tarde contaminadas pela maldade da sociedade. A ideia do Bom Selvagem, de Jean-Jacques Rousseau, é uma ilusão, que em muito se afasta da realidade.

Todas as crianças nascem com todos os instintos que as empurram para se comportarem em função da sua vontade e do seu belo prazer, desconhecendo responsabilidades e perigos, completamente despreocupadas com a dor ou sofrimento que podem causar aos outros, e sem capacidade para anteciparem os problemas que lhes podem advir no futuro em função da sua irresponsabilidade no momento presente. É assim qualquer criança, quer no passado, quer hoje. E é assim que deve ser, pois se fosse diferente, nenhuma criança sobreviveria ao entrar no mundo. A vida exige de cada um de nós a capacidade de reclamar o que o próprio necessita, como uma arte de se preocupar consigo mesmo, como forma de aumentar a probabilidade de sobreviver.

É durante o processo de desenvolvimento, que acontece na relação da criança com os outros humanos, e também pelo seu agir sobre as coisas do mundo, que o seu cérebro se reorganiza, ganha uma nova estrutura, e se formam novos órgãos e conexões entre as diferentes regiões dessa estrutura maravilha que é o cérebro. É um processo lento e muito complexo. E exige uma atenção muito especial da parte dos adultos e, mais tarde, também da parte dos amigos. Mas no final, esse fantástico órgão, o cérebro, deixa de funcionar apenas como uma estrutura biológica, dominada por caprichos e pela urgência da satisfação de desejos, como se ignorasse a atenção e o respeito pelos outros, para passar a funcionar como um cérebro psicológico, no qual os caprichos e os desejos são negociados com o trabalho, tendo em atenção as consequências futuras dos actos no presente, e o seu bem-estar é negociado em função do bem-estar das outras pessoas e das consequências para si próprio no futuro. Mas então já não será uma criança, isso já diz respeito ao ser adulto.


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