Pobre coitado do macho que é macho! Como seria mais feliz se fosse ele a partilhar os doces momentos que a mulher procura nos braços de outro homem.
Macho que é macho usa bigode. Cospe no chão, não usa perfume, e não troca um bom jogo de futebol pela companhia da sua mulher. Aliás, ela nem sabe quando são os jogos, e quando os vê em casa, se ele não grita ela nem traz a cerveja que ele comprou e o faz saber onde é o frigorífico.
Macho que é macho não chora – sabem bem porquê -, nem mostra sentimentos. No sexo é rápido. Vira-se para o lado e já adormece. Não precisa ver-lhe as mamas, para isso tem as de todas as outras mulheres que nunca deixa de comentar. Ele é macho, é o instinto. Não lhe bate porque ela é frágil, mas um bom grito impressiona sempre os outros machos. E etc., e etc.
Pobre coitado! Como seria mais feliz se fosse ele a partilhar os doces momentos que a mulher procura nos braços de outro homem. Não será tão macho, é verdade. Mas com toda a certeza é bem mais feliz. E inteligente, e lúcido e consciente, para além de afectivo.
Na caminhada do seu desenvolvimento, este outro perdeu a oportunidade de se tornar macho, macho mesmo. Mas fez-se pessoa, daquelas que até podem amar uma mulher ou um homem. Por isso mesmo as ama completamente quando é essa a sua orientação. E se prepara para elas quando lhes oferece o corpo, deixando-as húmidas de desejo na expectativa de mais um encontro.
Este também vê futebol, mas com ela. E bebe cerveja, mas abre primeiro a dela porque a ama como pessoa. Se o resultado do jogo não for o melhor, sabe e pode conversar com ela e inverter a emoção para positiva, enquanto o macho que é macho procura na agressividade e no álcool, ou então numa qualquer casa de banho um camionista, que o ajude a baixar a ansiedade. Mas nada de preconceitos; lembremos as palavras do Papa que nos convida à compaixão por todos os seres humanos. Mesmo o macho que é macho é criatura de Cristo
(publicado originalmente na revista Cristina, em 2015)