O uso da palavra “você” e do termo “tu” é um auxiliar preciso na clarificação das relações entre filhos e pais
“No princípio era o verbo …” Assim começa o Evangelho segundo São João. Palavras sábias para o psicolinguísta, que conhece que a palavra forma a pessoa e é um espelho do pensamento. A forma como cada um fala, a sua escolha das palavras, estrutura a personalidade humana; o mesmo é dizer, orienta a forma como agimos no mundo e com as outras pessoas, e também gere muitas das nossas atitudes.
Tratar alguém por “Você” ou por “Tu”, não é uma escolha sem consequências. Estes marcadores linguísticos de deferência indicam ao outro com quem falamos a consideração que por ele temos, e ajudam também a posicionarmo-nos em igualdade, deferência (respeito) ou superioridade em relação a essa pessoa. Ajuda-nos a perceber quem é para nós aquela pessoa.
Do tempo em que em Portugal algumas profissões eram claramente superiores ao resto do povo, todos nos lembramos de tratar o médico por Senhor Doutor e ele nos responder com um claro Tu – Vais tomar estes medicamentos e voltas cá na próxima semana ….
E se é verdade que falamos como pensamos, também é verdade que pensamos em função do modo como falamos, e por isso mesmo o uso do “você” e do “tu” é um auxiliar preciso na clarificação das relações entre filhos e pais.
Nas últimas décadas, especialmente após o 25 de Abril, muitos pais optaram por sugerir aos filhos o uso do “tu” de filhos para pais. Uma forma de se sentirem mais íntimos. É uma escolha que cabe a cada um, naturalmente. Mas como especialista tenho a obrigação de informar, apenas informar, que esta “pequena” mudança não é neutra na difícil tarefa que cada criança enfrenta no sentido de reconhecer aos seus pais, avós, tios e outros adultos uma deferência (respeito) que não é fácil de aceitar.
Desejo que a possibilidade dessa escolha continue na vontade de cada um. Mas gostaria que cada um pensasse que a opção pelo “você” quando uma criança se dirige à mãe ou ao pai, especialmente depois dos 5 anos de idade, poderá ser uma ajuda preciosa no futuro tempo da terrível e muitas vezes dolorosa oposição, de luta pelo poder, que caracteriza a idade da adolescência…
(publicado originalmente na revista “Cristina”, em abril de 2015)