É comum haver a opinião de que o nu perante os filhos é um gesto de liberdade e de confiança… Mas eu não tenho a mesma opinião. Descubra porquê.
O lidar com o corpo depende da cultura. Por isso a forma e o quanto as pessoas mostram a sua nudez aos outros varia com o lugar e o tempo que vivem. Olhando fotografias de praias no início do século passado, rimos com os fatinhos de banho usados naquele tempo, que tanto contrastam com o fio dental usado hoje em muitas praias, especialmente as que estão mais na moda. As mini saias seriam uma ofensa moral em muitas culturas que reclamam inclusive o uso de um véu a cobrir a cabeça das senhoras. Em muitos lugares do mundo, mesmo na praia, as mamas das senhoras devem estar minimamente cobertas enquanto noutros lugares o nudismo é uma realidade. E por ser cultural é comum escutarmos ou lermos a opinião de que o nu perante os filhos é um gesto de liberdade e de confiança, alguma coisa como o ultrapassar de preconceitos.
Não tenho a mesma opinião. O que acontece em público ou em privado tem leituras diferentes, e especialmente no que respeita à relação entre pais e filhos o privado deve ser sempre olhado com mais atenção, pois a mente da criança e do jovem é diferente da do adulto.
Depois dos cinco ou seis anos, todas as crianças têm curiosidade sobre o corpo dos outros, uma curiosidade que lhes serve para conhecerem e entenderem o seu próprio corpo. Olhando o corpo de outras crianças da mesma idade têm um espelho do seu próprio corpo. Mas olhando o corpo dos pais têm um espelho que as diminui.
O pénis do pai é claramente maior do que o do menino. As mamas da mãe são claramente mais bonitas do que as da menina. Mais tarde, após a puberdade o corpo adolescente está carregado de energia sexual ainda sem grande filtro, e a tensão dirigida aos pais resulta carregada de culpa e de angústia.
Por tudo isto me parece que, se no público, por exemplo numa praia de nudismo, se pode viver aquela tranquilidade que é liberdade e confiança, no privado do tomar banho com os seus filhos e andar nu à frente deles em casa pode, e deve, ser evitado por poder ser desconforto.
(publicado originalmente na revista “Cristina”, em outubro de 2015)