Podemos trair quando menos esperamos, sem planear nada. E depois? Será que vale mesmo a pena contar?
A traição é tão antiga quanto o amor. Vem da natureza biológica humana, e nem sempre o desenvolvimento psicológico é capaz de a apagar. Por exemplo, no verão, o calor, que traz os corpos mais despidos e com uma cor mais bonita, mais tempo livre e ainda a energia gerada por mais horas de sol, torna os sentidos mais atentos e o desejo mais intenso. Nem é preciso planear. Quando menos esperávamos… Ops, já aconteceu! Depois vem a culpa, a angústia e um desejo intenso de contar à pessoa verdadeiramente amada como em ato de contrição.
Mas e depois? Como vai reagir? Contar seria honesto… mas por outro lado poderá trazer o fim de um amor de anos. E por algo que já nem tem significado. Mas a cada dia, e a cada noite, a angústia aumenta, juntamente com o medo das consequências. Neste conto … ou não conto, o melhor mesmo é fazer as contas.
Se contar, a angústia diminui; mas na outra pessoa, ao saber o que aconteceu, aumenta. Menos angústia num, mais angústia no outro … A conta é simples, menos um mais um o resultado é zero. Por aqui nada se resolve.
Já em relação à injustiça, aquando da traição foi uma injustiça, e ao passar a angústia para a outra pessoa outra injustiça. Resultam desta conta duas injustiças. Foi traída, não se divertiu, não teve prazer, e ainda por cima recebe de quem a traiu um carregamento de angústia. Parece-me que a conta está bem: a angústia é sempre a mesma, só passa de um para outro; e duas injustiças, uma quando traiu e outra quando lhe entregar a angústia.
Ora bolas! Quem teve o prazer fica sem angústia, mas quem nada fez fica com a angústia. Se desta matemática da traição só restam injustiças, parece que da conta do conto … ou não conto resulta que o melhor mesmo é ficar calado e não voltar a trair. E nem há certeza de que realmente se perdoa o que na verdade nunca se esquece. Mas essa já seria outra matemática do amor.
(publicado originalmente na revista “Cristina”, em julho de 2015)