Recordar e inventar – Bom sexo e o actual

Escrito em em Outubro 3, 2018

A cientista Elizabeth Loftus estudou e disse de forma muito clara que recordar é inventar… E isso aplica-se tanto ao sexo…

A primeira vez de um relacionamento sexual não é tão importante quanto o que culturalmente se transmite. Este mito resulta de vivermos mais na fantasia que na realidade, no que respeita ao sexo. Sou da opinião de que ainda não sabemos fazer sexo e ainda não sabemos viver a nossa sexualidade. Por essa razão ficamos tão enredados nas fantasias e, como normalmente se espera muito tempo pela primeira vez, criam-se muitas expectativas, e como normalmente o sexo não é de grande qualidade, tendemos a colocar na nossa memória algo do passado, que muitas vezes não corresponde à realidade mas a uma fantasia, normalmente a fantasia das nossas expectativas antes da primeira vez.  

Com o tempo o sexo perde qualidade, mas perde qualidade porque deixamos passar oportunidades e não fazemos  sexo, não o praticamos, de uma forma investida e com qualidade. Se o fizéssemos, então, era sempre a última vez que era a melhor, já que íamos evoluindo, e já não estaríamos a invocar como foi a qualidade do sexo no passado. Pode haver coisas passadas que se recorde com carinho e pessoas de quem se tenham boas memórias, mas, se tivéssemos que optar, não trocaríamos quem temos hoje por alguém do passado. Só quem não está feliz hoje se refugia no passado. 

O mesmo acontece com tudo o que vá melhorando. Por isso digo que só continuamos a falar da primeira vez no sexo porque as mais recentes não têm tido qualidade; se tivessem, nunca iríamos lembrar a primeira.  

A cientista Elizabeth Loftus, nos anos 70, estudou e disse de forma muito clara que recordar é inventar; as coisas não ficam claras e internas na nossa memória, ficam soltas, e por isso quando precisamos delas novamente na nossa mente, vamos reconstruindo o que se passou – lembrar não é como ler o que está escrito num caderno, é antes como se reescrevêssemos a história; e nós reconstruímos as memórias da forma que mais nos convier. Se não está a ser tão bom agora, então reconstruímos uma forma mais agradável no passado, para compensar.  

Quando alguém fala muito da primeira vez, é altura para essa pessoa parar e avaliar o sexo que está a ter no presente. Para além disso, a primeira vez é sempre muito confusa, cheia de ansiedade, pelo desconhecido, de dúvidas sobre como vai ser, se conseguimos ou não, se o parceiro vai ou não gostar, se vai doer ou não. Há tantas dúvidas e aflições em volta da primeira vez, que seria difícil que a primeira vez tivesse sido a melhor vez.  

Mesmo o peso cultural e religioso, que impõe a escolha da “pessoa certa”, transporta tanta ansiedade para a primeira vez, que acaba por influenciar negativamente a primeira relação sexual, razão porque seria muito difícil que essa fosse a melhor. 


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