Casamento tradicional

Escrito em em Setembro 26, 2018

O casamento tradicional é uma coisa que rejeito e detesto, porque hoje em dia não faz ninguém feliz

Ultimamente ouvimos falar muito de casamento tradicional, por oposição a outros tipos de casamento, como o casamento homossexual. Na minha opinião, um casamento tradicional é isto: vamos imaginar dois amigos, ou familiares a conversarem, uma Cristina e um Luís, por exemplo. A Cristina chega ao pé do Luís e diz «Oh Luís, estás ali a ver a Manuela? Aquela é que era uma boa rapariga para ti, casa lá com ela.» Dez anos depois, o Luís passa o tempo todo a beber cerveja e a Manuela diz frases como «primeiro os meus filhos – acima de tudo, os meus filhos e depois é que vem o meu marido.» Porque, na verdade, a Manuela nunca gostou do Luís. É isto um casamento tradicional. 

Dou outro exemplo, um exemplo mais tradicional ainda, mais recuado no tempo: o Luís é filho do dono do moinho. A Manuela é filha dos que têm uma seara. E decidem, o pai da Manuela e o pai do Luís, que os seus filhos vão casar um com o outro, porque assim ficavam na mesma família a seara e o moinho.  

O casamento tradicional é o casamento onde duas pessoas, um homem e uma mulher, se juntam por interesse das suas famílias, pelo que não têm de gostar um do outro. Foi assim durante séculos, e ainda era muito assim até há cerca de 50 anos.  

O casamento tradicional é uma coisa que rejeito e detesto, porque hoje em dia não faz ninguém feliz, pelo contrário, faz muita gente infeliz, razão porque escrevi três livros contra ele. Ele existe ainda hoje, mas é neste formato que ninguém o quer.  

Aquela situação em que um homem e uma mulher se juntam porque se desejam, porque se gostam, porque se amam, nasceu com a união de facto. E a seguir, veio a necessidade de reformular a união de facto, porque vivemos numa sociedade onde as pessoas pagam impostos, têm direitos, querem visitar o seu companheiro no hospital – por estas razões e muitas outras, deu-se a necessidade de formalizar este novo tipo de relacionamento amoroso, como o nome indica, baseado, não no interesse, mas no amor.

A vida é dinâmica, muda muitas vezes, e o mesmo acontece com normas sociais. E assim se adaptou a ideia de casamento, o tradicional por interesse, à ideia de união de facto, por sentimentos, e assim se transformou o casamento em casamento por amor. Acredito que as pessoas hoje querem um casamento com afectos e com amor, não um casamento tradicional.  

Nesta conversa é muito importante não confundir casamento com matrimónio. A Lei diz respeito a casamento. O matrimónio diz respeito à igreja católica. Nós vivemos numa sociedade que tem representantes católicos, evangélicos, protestantes, judeus, muçulmanos, budistas, ateus, etc. Assim sendo, falar de matrimónio é estranho, pois não podemos só falar para os católicos apostólicos romanos.  

O casamento tradicional é uma coisa que, com certeza, já ninguém quer. As pessoas juntam-se por afecto, por amor e pelo gosto de estarem um com o outro e de se realizarem – é isto que eu defendo – e não aquela coisa comercial do moinho e da seara de cada família.  


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