Dizer sim ao “não”

Escrito em em Setembro 12, 2018

Quanto maior é o desenvolvimento social, e maior a liberdade interior de cada pessoa, mais o NÃO se revela um instrumento absolutamente fundamental

A palavra NÃO é a primeira a ser usada com sentido pela criança. Depois das articulações MamÃo-Ãoe mais algumas que nos fascinam com a nova competência da pequena criança, por volta dos 18 meses chega o NÃO, mas este já com sentido. Mas o que é isso de umas palavras terem sentido e outras não?  

No último domingo, eu e mais alguns elementos da minha família passámos momentos muito agradáveis no parque Marechal Carmona em Cascais, com as minhas sobrinhas, gémeas, de 15 meses. Numa das muitas brincadeiras, elas lá davam os seus passinhos seguindo pombos e chamando-os de Ão-Ão, a designação que também usam para os cães. Nada de estranho para quem já acompanhou o crescimento de crianças pequenas; uma mesma articulação serve para vários objectos ou seres, o que apenas significa que não têm ainda um entendimento preciso sobre aquela palavra. Aquele som articulado, Ão-Ão, substitui o apontar com os dedos e as mãos, referindo para as outras pessoas o que querem sinalizar.  

Nas suas vidas, como aconteceu com cada um de nós, o NÃO será a primeira palavra a ser articulada com sentido e um único significado: responder negativamente, recusando uma oferta ou um pedido. 

Esta, que é a primeira palavra a ser articulada com sentido por qualquer humano, começa nesse momento a tornar-se elemento fundamental da sua personalidade. A afirmação negativa é o instrumento usado por cada humano para se diferenciar em relação a todos os outros, permitindo assim edificar a sua personalidade.  

Mas curiosamente, e apesar de ser a primeira palavra articulada com sentido em todas as culturas e nos mais diversos idiomas, o seu uso nada tem de inato. Precisa ser aprendido, e nem sempre de uma forma fácil. Num estudo realizado na minha clínica no ano de 2013, dos 401 novos casos com idades entre os 5 e os 25 anos, apenas 8% mostravam agilidade para usar a palavra não, e assim expressarem a sua personalidade a outros humanos, sem levantar problemas no relacionamento social. Outros colegas, e muitos estudos publicados, alertam para a necessidade do uso assertivo da palavra NÃO nas sociedades modernas. Quanto maior é o desenvolvimento social, e maior a liberdade interior de cada pessoa, mais o NÃO se revela um instrumento absolutamente fundamental.  

(publicado originalmente no meu livro “A Arte de Dizer Não”)


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