A importância dos amigos na adolescência

Escrito em em Setembro 2, 2018

Na adolescência, são muitas as coisas necessárias ao desenvolvimento da personalidade que se estabelecem na relação com os amigos. Diferentes das que oferece a relação com os pais

A construção da personalidade é um processo fundamentado nos relacionamentos continuados. Ao longo do desenvolvimento, inclusive na adolescência, diferentes relacionamentos permitem construir diferentes aspetos da personalidade, todos eles necessários.

Nos primeiros anos de vida esta relação toma o nome de afeto, e é estabelecida essencialmente com os pais. É chamada uma relação de primeiro cuidador, e o vínculo que se estabelece entre pais e filhos é de tipo 100-0, ou seja, os pais cuidam 100% do filho e este cuida 0% dos pais porque ainda é pequeno. Aqui a criança aprende a sensação de segurança e proteção, base do sentimento de gratidão e carinho pelos pais já na idade adulta. Graças a este vínculo, a criança descobre imensas coisas, mas apenas desde o ponto de vista daqueles seus heróis, os pais. O que eles gostam, o que eles admiram, é também o que ela gosta e admira. Não é ainda um verdadeiro gostar ou admirar; ela toma dos pais o que é da personalidade deles.

Por volta dos seis anos, a idade em que entra para o primeiro ciclo na escola, inicia um importante processo de socialização. Um cada vez maior convívio com os seus pares, os da mesma idade, permite-lhe descobrir uma série de outras realidades, com outros gostos e interesses. Estas novidades originam curiosidades na criança, e algumas tornam-se também interesses. Progressivamente os pais perdem o estatuto de heróis, que passa a ser atribuído aos amigos.

Com o passar dos anos surge entre os amiguinhos um novo vínculo emocional, a amizade. Esta é de tipo 50-50, ou seja, cada um dos adolescentes cuida e é cuidado pelo outro. Uma relação de segundo cuidador. E as exigências são também diferentes. Se, por exemplo, a jogar ao berlinde com o pai podia gritar que ganhou mostrando a alegria da vitória de braços no ar mesmo quando não acertava na covinha, agora rápido percebe que se não respeitar a regra eles não brincam mais com ele. O que parece uma enorme crueldade é a base de um dos mais importantes aspetos da socialização: redução do autocentrismo e do egoísmo. E isto, só os pares (os amigos) conseguem fazer. Mães e pais são demasiado mães e paisde coração mole. Neste percurso com os pares, o adolescente descobre novos pontos de vista, e aprende a sair do seu narcisismo para se tornar capaz de ser companheiro.

Mais tarde, já adulto, talvez se afaste de novo de todas estas novas opiniões e partilhe outra vez com a sua família os mesmos valores; mas agora são realmente seus, não apenas uma cópia. E isto só foi possível porque durante um tempo esteve especialmente envolvido com os seus amigos. Ao longo deste processo da adolescência, provavelmente um ou dois amigos tornaram-se especiais. Foram os seus confidentes quando se tratava de medos e receios. E numa relação muito mais equiparada, pois os pais mostram já segurança e força na vida, enquanto os amigos têm todos esses mesmos medos e receios. E porque a relação é mais de igual para igual, a cumplicidade pode ser mais intensa. Tão mais intensa, que por vezes até permite algum desabafo sobre alguma irritação em relação aos próprios pais, sem o receio de no dia poder dizer outra vez que são os melhores do mundo.

São muitas as coisas necessárias ao desenvolvimento da personalidade que se estabelecem na relação com os amigos. Diferentes das que oferece a relação com os pais. E é por isso tão importante que na adolescência, mesmo que, naturalmente, sempre por perto, os pais aceitem que os amigos se transformem nos novos heróis. E sem medo. Na verdade é um processo apenas transitório. Um perder para ganhar. O filho que não faz este processo na adolescência, torna-se um adulto maçador e implicativo, incapaz de terminar um conflito permanente com os pais, porque incapaz de afirmar o seu próprio Eu. E nunca será um adulto seguro, porque os outros sempre serão para ele estranhos e assustadores …  


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