Com três letrinhas apenas…

Escrito em em Agosto 1, 2018

Com três letrinhas apenas, se escreve a palavra mãe, tão associada a uma imagem de carinho e entrega na arte e na cultura… Mas, infelizmente, no dia-a-dia, nem sempre é assim…

Com três letrinhas apenas, se escreve a palavra mãe, uma palavra pequena, a maior que o mundo tem. Todos conhecemos este verso, muitos de nós já o repetimos e até por mais do que uma vez. Alguns, talvez invadidos por um forte sentimento de solidão e saudade, gravaram a mesma ideia na própria pele, e já todos lemos no braço de alguém “Amor de mãe”, eventualmente seguido de Angola, Guiné ou Moçambique, indicando terras distantes onde se viveram momentos bem difíceis e carregados de angústia.

Parece que a tal senhora Mãe sempre é evocada nos momentos mais difíceis. A sua força é tão antiga, que há mais de três mil anos já os antigos judeus criavam o provérbio: Quando Deus estava já muito cansado, criou as mães. E assim se percebe que a associação entre a imagem de mãe e uma atitude de entrega com um sentimento de carinho e aceitação é já bastante antiga.

A arte apresenta-nos histórias que atestam essa verdade. Dancer in the Dark (2000), do realizador Lars von Trier, com Björk e Catherine Deneuve, dá conta dessa força de ser mãe. Também a história nos apresenta exemplos surpreendentes, como o da Jovem Maria com o seu filho Jesus.

Mas se assim é a na arte e na história, o mesmo não acontece no dia-a-dia comum quando mães desprezam filhos, os maltratam física e emocionalmente, ou mesmo chegam a matá-los. E se tudo isto faz parte da natureza humana, que verdade existe realmente na apologia das três letrinhas? A ciência não se ilude tão facilmente como a cultura. E se, mesmo quando inundada por ideias contraditórias em relação ao filho que com ninguém pode desabafar, a mulher em pós-parto lá se esforça por cuidar da sua cria, o mesmo não acontece à medida que os meses passam e que as hormonas geradas na gravidez e com as dores do parto vão desaparecendo do seu corpo.

Nos primeiros anos, por devoção ou obrigação, a mãe continua a tentar suprir as várias necessidades do seu filhote. Mas com o passar dos anos este esforço é cada vez mais difícil e aumentam os erros e as ausências. Aquela mãe cuidadora que temos na cabeça, comporta-se antes como uma mulher que reclama atenção e dedicação do filho em relação a ela. Não dispõe de força para educar, não tem paciência para as falhas do filho, que com a falta de educação (que ela mesma não deu), cada vez se tornam mais frequentes. Mais tarde, se o filho tem o azar de que os pais se separem, parece que então fica mesmo tudo perdido. É como se o filho só fizesse sentido enquanto está na relação com o homem que foi pai.

Separados, perdeu-se a relação amorosa e esqueceu-se o filho. Mais tarde surge ainda a mais cruel das competições: entre a mãe e a agora esposa. E o triste filho não sabe a qual agradar, se a das três letrinhas se a que ama … E se se conseguir libertar e se a mãe morrer sozinha, todos dirão que é o mais cruel dos filhos! E se esta história já irrita, quer os que comigo concordam quer os que me passaram a odiar, o que dizer quando a mesma dinâmica é observada não entre uma mãe e um filho mas entre uma mãe e uma filha. A competição de feminilidades multiplica por três a desorientação deste quadro já bem triste. Claro que nem todas as mães estão nesta categoria. Mas num número suficientemente grande para justificar este texto. E assim se vive na Rua de Maquiavel…


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