Aprender a terminar

Escrito em em Junho 4, 2018

Haverá lógica em não querer terminar um casamento fracassado e adiar a estabilidade afetiva com base na tradição ou no medo de começar de novo?

O divórcio é uma realidade legal no nosso país há muitas décadas. Apesar desta possibilidade, são milhares as pessoas que continuam a partilhar as suas vidas numa relação cujo amor já desapareceu há muito tempo. Aqueles sentimentos de carinho que possam ter existido já nem fazem memória. Muitas vezes o respeito já se perdeu e as ofensas são agora permanentes. Aquele carinho ou afeto que no passado uniu aquelas duas pessoas foi agora substituído pelos piores sentimentos que se podem descobrir entre dois humanos.

Quando estamos envolvidos, quer por amizade, quer por motivos profissionais, e perguntamos o porquê de se manterem num tal destino, se há filhos, estes são geralmente a desculpa para não enfrentarem a mudança. Não entendo, ninguém entende, nem mesmo os próprios filhos, pois todos sabemos que será sempre impossível a uma criança ou um jovem crescer feliz e saudável dentro de um tal ambiente emocional. Mas infelizmente essa desculpa é ainda muitas vezes reforçada por algum familiar, que sempre lembra que se os pais também se deram mal e continuam juntos, que tenham eles também paciência.

Paciência? Os tempos mudaram, e apesar de muitas coisas que não estão bem e que todos devemos apontar se queremos que mudem e que possamos viver numa sociedade mais evoluída, a verdade é que já muitas outras mudaram. As mulheres já têm direito a voto nas eleições, os negros já podem frequentar as universidades, a pena de morte já acabou há muitos anos e os senhores feudais já não possuem o direito de dormir com a noiva na primeira noite.

Já tantas coisas mudaram, coisas que ninguém quereria que hoje voltassem, então porque se deve sofrer num casamento infeliz apenas porque os pais também sofreram? Será sadismo? Será que estes pais não querem ver felizes os próprios filhos apenas porque eles mesmos também sofreram? Ou apenas estão perdidos e confusos numa sociedade que não aprendeu ainda a refletir a vida e os sentimentos?

Talvez possamos viver noventa anos. Se existir outra vida nesta terra, não teremos certamente consciência desta que agora estamos a construir. Diz-se que a vida são dois dias, num começa e no outro já está a terminar. Claro que devemos combater a impulsividade de desistir à primeira contrariedade. Mas terá alguma lógica hipotecar a vida afetiva com base na tradição ou no medo de começar de novo?


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