PUSSY RIOT E OS DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS DA MENTE HUMANA

Escrito em em Outubro 16, 2017

A minha primeira visita a Moscovo foi em 1985. Nesse tempo, ainda União Soviética, a atual catedral de Cristo Salvador era uma piscina pública. Inaugurada em 1883, local principal da Igreja Cristã Ortodoxa Russa, ali se celebravam as principais solenidades. Com capacidade para 15000 pessoas, podemos olhá-la como semelhante à Catedral de São Pedro no Vaticano, e com o mesmo significado que esta ultima tem para os católicos. Nos anos 30 do século XX, durante o comunismo, foi dinamitada e convertida em piscina pública. Lembro-me de escutar várias críticas de ocidentais sobre a atitude estalinista em relação à Igreja; mesmo em visitas realizadas já após a sua reconstrução nos anos 90, quando os guias turísticos falavam da época em que aquele lugar sagrado foi utlizado como uma piscina pública. Recentemente, como é do conhecimento de todos, um grupo de três jovens punk, com o nome Pussy Riot, manifestaram, exatamente nessa catedral, atuando num local do templo só acessível a sacerdotes, a sua oposição ao presidente Vladimir Putin. Foram condenadas a dois anos de prisão. A juíza Marina Syrova considerou que as três jovens cometeram um ato de vandalismo, uma violação da ordem pública mostrando claro desrespeito pela sociedade. Desta vez os mesmos ocidentais que antes se revoltavam contra decisão de Estaline em transformar a catedral em piscina pública, e que se diziam solidários com os cristãos russos, agora acusaram o governo russo de não dar liberdade à opinião pública. É interessante a facilidade como a mente humana utiliza dois pesos e duas medidas, ao jeito que lhe for mais conveniente. A Catedral de Cristo Salvador está para os cristãos russos como o Santuário de Fátima para os católicos. Que opinião teriam os portugueses se um grupo de três jovens, com um nome de banda que podemos traduzir como “vagina devassa”, subisse ao altar da Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima e cantassem, como as Pussy Riot russas, “Nossa senhora livra-nos do Passos Coelho que não nos liberta da troica”? Não sou católico. É público que sou ateu. Mas aprendi com os meus pais, católicos, que a religião de cada pessoa deve ser respeitada, e que os locais de culto, e muito em especial os locais sagrados para cada religião, devem obrigatoriamente ser respeitados segundo os princípios dessa religião. Foi com essa atitude que sempre visitei Igrejas católicas, templos evangélicos, igrejas ortodoxas, mesquitas muçulmanas, sinagogas judaicas, templos budistas e hinduístas, e terreiros de umbanda e de candomblé. Tenho orgulho nesse meu comportamento, e considero-o o único correto. No domingo de Páscoa deste ano, aconteceu estar em São Paulo, no Brasil, e almoçar em casa de amigos cristãos evangélicos. Sabem que sou ateu, mas integraram-me no seu domingo sagrado, que participei com suas orientações. É o meu respeito por eles. A fé é parte integrante da personalidade de cada pessoa que crê, e certamente que as três jovens poderiam criticar Putin num outro ambiente. Não ganhariam, é certo, o mesmo protagonismo; mas há limites até para a liberdade de cada um. Sou ateu, e estudei o pensamento de Marx e de Lenine com alguns dos melhores professores de Moscovo, e talvez exatamente por isso, estou absolutamente de acordo com o parecer da juíza de que aquele foi um ato de vandalismo (moral) e uma violação da ordem pública que mostra um claro desrespeito pela sociedade. E quanto à Liberdade, continuo a pensar que significa ser capaz de não fazer tudo o que nos apetece.



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